sábado, 15 de agosto de 2009

A NATUREZA SIMBÓLICA DA ANIMAÇÃO

O ser humano destaca-se dos outros seres pelo seu dom representativo. Através de analogismos, é capaz de evocar uma imagem da sua memória por meio de outra coisa diferente da primeira e que a representa. Essa representação torna-se símbolo, pois é uma determinação arbitrária de correspondência. O símbolo é aquilo que foi determinado representar e, ao mesmo tempo, aquilo que é por si mesmo. André Virel[1] reforça essa idéia:

Ser simbólico não é apenas ser o duplo em si, é ser a si e outra coisa ao mesmo tempo. O pensamento simbólico não é somente um simples reflexo, um duplo do mundo exterior: ele é o reflexo do mundo e um mundo autônomo ao mesmo tempo. (...) De fato, é necessário precisar que nada é simbólico em si, mas o é justamente pelo pensamento, o qual possui como característica essencial a função simbólica, esta possibilidade de carregar uma entidade do mundo exterior ou mesmo do mundo do pensamento, uma entidade concreta ou abstrata, com valores exteriores a essa entidade[2].

O Teatro de Animação é, por excelência, simbólico. O objeto manipulado torna-se símbolo, pois a manipulação visa imbuir o objeto de propriedades que ele não possui. Ele passa a representar algo através da manipulação. Representa a vida ativa sob alguns de seus aspectos (através do movimento) concomitantemente ao objeto inanimado que apresenta. Mas por que utilizar o símbolo? Por que representar simbolicamente? Pelo simples fato de que o símbolo é capaz de expressar grandezas que não podem ser expressas de outra forma. Aquilo que não pode ser mesurado por qualquer um de nossos sentidos, aquilo que não pode ser pensado ou definido, pode ser representado. A representação não possibilita a apreensão total da grandeza, mas possibilita identificar e criar conceitos, tornando-a cognoscível. A representação permite compartilhar o mundo através da expressão e da manifestação, lavrando um código para uma comunicação. As forças invisíveis da natureza, os sentimentos, as idéias podem tornar-se perceptíveis e compartilháveis dentro de um grupo. Por meio da representação antropomórfica redimensionamos o homem em seu contexto espaço-temporal, enviando para o espectador a possibilidade de ver-se refletido nesse espelho representativo, ou seja, o espectador assume uma posição distanciada que lhe possibilita ao mesmo tempo identificar-se com o objeto representado e manter sua individualidade.

O Teatro de Animação, por ser representação, é uma forma de organização de realidade, pois é comunicação com sentido. É um sistema organizado, pois, pela sua prática, pressupõe uma série de “regras”, diretrizes para a manipulação e para a interpretação do ator. Essas diretrizes compõem ações ritualísticas que evidenciam seu caráter. No momento em que o público presencia a animação, estabelece-se a comunicação. A mensagem, as informações constantes em tudo que é percebido pelo público ecoam no interior deste, produzindo sentimentos. Constitui-se, portanto, uma linguagem artística. Sendo linguagem uma atividade que apresenta um estado mental, pois ela é a concretização do pensamento, apresenta um sistema de comunicação organizado que utiliza signos (qualquer elemento que represente outro).

Maryse Badiou, ao analisar a manipulação de objetos, observa que as técnicas empregadas podem ser traduzidas simbolicamente como o meio para apreender o espaço e o tempo. O indivíduo, impregnado pelo desejo de criar um espaço interior com o qual possa se fundir, incorpora-se fisicamente ao objeto a fim de animá-lo e potencializá-lo:

A espécie humana é movida por uma necessidade biológica de integração espaço-temporal que se completa misturando nela a sua capacidade de imaginar, de sonhar e de criar símbolos, tomando sempre como ponto de referência o corpo humano (...) Desde o começo de sua vida, o indivíduo trata de imaginar o seu corpo dentro do espaço e de realizar o seu esquema corporal tentando estabelecer uma relação de acondicionamento do interior para o exterior, de dentro para fora[3].

Tal necessidade humana de integração espaço-temporal está situada no nível biológico, a partir dos corpos em situação, e no nível da faculdade própria do ser humano de criar símbolos. Dessa forma, Badiou divide as técnicas em duas categorias. De um lado, estão aquelas em que há o contato físico com o manipulador, ocorrendo um processo profundo de penetração no objeto. Nessa forma de animação, existe uma percepção do espaço-tempo através da habitação do objeto – como nos casos das técnicas que utilizam luvas, máscaras, fantasias, etc. De outro lado, existem as técnicas que impulsionam o homem a expandir-se e conquistar o território exterior. Nessas técnicas, por sua vez, já existe o desejo de dominação do objeto alheio ao próprio corpo, ainda com sua função de integração espaço-temporal – como nos casos das técnicas que utilizam varas, fios e tringles
[4], por exemplo, para a movimentação dos objetos. Assim, Badiou conclui que “a marionete e as sombras são os meios privilegiados que permitem ao homem habitar o espaço e dominar o tempo de maneira não parcial e sim global e sintética”[5].


[1] VIREL, André. Histoire de notre image. Genève: Ed. Du Mont Blanc, 1965.
[2] Todas as traduções de textos em francês ou espanhol que se seguem são de minha autoria.
[3] BADIOU, Maryse. L’ombra i la marioneta o les figures dels deus. Barcelona: Instituto de Teatro de Barcelona, 1988, p. 108.
[4] Espécie de vara metálica fixada na cabeça do boneco, utilizada para guiá-lo. Muito utilizada pelos pupazzi tradicionais italianos.
[5] BADIOU, Maryse. L’ombra i la marioneta o les figures dels deus. Barcelona: Instituto de Teatro de Barcelona, 1988, p. 108.

http://www.caixadoelefante.com.br/

Nenhum comentário: